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domingo, 24 de janeiro de 2010

AMÉLIA por Rosana Banharoli

Redemoinho de histórias e refeições

Rasga o espaço e suga-me para seus mistérios

Hálitos e hábitos que nunca romperam a mordaça.

.Enevoado, espectral.

Sustentada por vertentes de notas

Flutuo nos cheiros fugidios de velhos baús.

Hortelã capim-cidreira erva-doce melissa.

Braços estendidos a tocar o passado buscam

A clareza das respostas empoeiradas nos bolsos

De antigos casacos.

Queijo branco doce de abóbora compota de figo

Bolinho de chuva leite com groselha.

Mãos senis do outro lado,

Onde quase chego.

Piso na relva que alicerça esta passagem .

Sinto as pequenas flores que descolaram de seus vestidos.

Quero me confortar nelas.

Só alcanço o raminho de arruda de traz de sua orelha.

Chorinhos e risinhos de pés descalços guardados em seus ouvidos

De cabelos lilás e avental de plástico.

Desço os degraus esverdeados de meus devaneios e,

A música chega ao final.

RETRATO TRAÇADO por Junior Filth

Num molde abstrato

Faço, refaço

- traço a traço -

Os riscos do retrato

Imagem de adjetivos

Crassos, escassos

Que do fracasso repasso

Servindo as palavras como aperitivos

Para o leitor, ofereço a talher

E passo a passo

Em pedaços me estilhaço

Ao mostrar o esboço da perdida mulher

Horas após, na janela discreta

Apoio os braços no aço

Dos abraços devassos

E sob a luz das estrelas, me torno poeta.

ESTAÇÕES E LEMBRANÇAS por Junior Filth

Sentia aquele corpo feito brasas me corrompendo;

A beleza fulgurava ardente em meio à ilusão.

Perdido em lembranças, vejo-a insaciável e cedendo,

Aplacada por minhas carícias numa noite de verão.

Por ela, desvelei o eterno fascínio

Quando pôs fim a dor e ao meu abandono.

Felizes, não pensávamos no possível declínio

Dos dias lascivos que nos amamos ao outono.

Subitamente, veio a última vez

Das palavras doces de amor eterno.

Relutei ao vê-la tomada pela lividez

No ataúde exposto à frieza do inverno.

Restam agora apenas lembranças

Da mulher que não mais me espera.

Guardarei para sempre nas entranhas...

A solidão da inalcançável primavera.